Transcidadania traz de volta a esperança de uma vida melhor para as trans.

“As pessoas têm seu trabalho, têm seu salário, tem aposentadoria, tem férias. Por que uma trans não pode ter esse direito também? Para ser um humano tem que ser somente homem e mulher hetero? O resto será para todos sempre um motivo de piada?”. Featured image

O programa Transcidadania que foi lançado no final de janeiro pelo prefeito Fernando Haddad (PT). Coordenado pela Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania, ele determina o oferecimento de R$ 840 para travestis e transexuais concluírem ensino fundamental e médio por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA), acompanharem cursos profissionalizantes do Pronatec e realizarem estágios. Foram disponibilizadas, inicialmente, 100 vagas com duração de dois anos – sendo que todas já foram preenchidas. Além do orçamento de cerca de R$ 3 milhões da SMDHC, outras secretarias desenvolveram, dentro do programa, ações específicas com verbas próprias. A Secretaria Municipal de Saúde, por exemplo, passou a oferecer tratamento hormonal às participantes em duas Unidades Básicas de Saúde. Além disso, a Secretaria de Políticas para Mulheres começou a realizar atendimento prioritário às travestis e transexuais vítimas de violência doméstica no Centro de Referência da Mulher (CRM). A Secretaria de Educação, por sua vez, regulamentou a utilização do nome social na rede municipal de ensino em boletins, livros, registros escolares, certificados e diplomas. De acordo com a organização europeia Transgender, o Brasil é o país onde mais ocorrem assassinatos de travestis e transexuais em todo o mundo. Entre janeiro de 2008 e abril de 2013, foram 486 mortes, número quatro vezes maior que no México, que ocupa a segunda posição da lista.

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As pessoas vulneráveis na maioria dessas beneficiárias é ou foi prostituta com relatos ter sofrido sempre discriminação na escola, o que as levou a abandonar os estudos, reclamam das dificuldades para conseguir outra ocupação, mas há casos mais complicados. Há portadoras de HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis e viciadas em drogas e álcool, um dos critérios para inclusão é que a beneficiária não tenha tido trabalho formal por mais de três meses nos últimos três anos. O objetivo é que, até 2016, as alunas concluam o ensino médio, façam cursos profissionalizantes e de cidadania e estágio.

Coordenadora se diz surpreendida com boa recepção aos alunos

A Coordenadora do Transcidadania, Symmy Larrat, 36 anos a travesti afirma ter sofrido na escola. “Na minha época, não era bullying. Era zoação mesmo”, lembra, A minha trajetória antes de ser coordenadora do Transcidadania, posso ser uma inspiração para as beneficiárias, natural de Belém, formada em publicidade, precisou sair de casa ao se tornar travesti, aos 30. Antes, atuara até como repórter policial no interior do Pará. Mas, depois da mudança, não conseguiu emprego e precisou se prostituir. Começou a militar, filiou-se ao PT e ocupou cargos até chegar ao Transcidadania.

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“Só a gente sabe como é sofrido ouvir os piores desaforos e ter de se submeter a fetiches que prefiro não comentar”, diz, sem abandonar o sorriso.

Symmy Larrat, coordenadora do Transcidadania. Ela contou que a ideia de desenvolver um programa especificamente voltado a essa população foi do próprio prefeito, que procurou a secretaria e pediu para que os responsáveis elaborassem algum projeto na área.

Ainda de acordo com Symmy, uma das surpresas que teve após a implantação do programa foi a boa recepção que os alunos (travestis e homens e mulheres transexuais) tiveram assim que chegaram às salas de aula. “As turmas são todas mistas. Eles estudam com pessoas que não são trans. Por isso, esperávamos alguns problemas, mas eles não aconteceram. Tivemos um ou outro caso pequeno e isolado, mas só. Fizemos um bom trabalho de conscientização e sensibilização com professores, funcionários e estudantes. Também colocamos um psicólogo in loco em cada escola. E acho que isso tudo deu certo”.

Transcidadania os professores e gestores passam por formação

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Os professores e gestores do Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (CIEJA), Cambuci e da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) Celso Leite Ribeiro participaram de atividades de formação, em suas próprias unidades, no âmbito do programa Transcidadania, iniciativa intersecretarial de promoção de direitos humanos e oferecimento de condições de recuperação a travestis e transexuais em situação de vulnerabilidade social. As unidades receberão os cem primeiros beneficiados pelo programa. As formações professores e gestores foram realizados em parceria com as Secretarias de Diretos Humanos e Cidadania (SMDHC) e de Políticas para Mulheres (SMPM).

“A sociedade está em um momento em que se mobiliza para conviver com a diversidade. E a educação tem um papel fundamental nesta transformação social”, afirmou Livia Maria Antongiovanni, diretora da Divisão de Orientação Técnica de Educação de Jovens e Adultos (DOT-EJA) da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo.

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 “Onde está a travesti que deveria estar aqui?”. Foi com esta provocação que Symmy Larrat, coordenadora do programa Transcidadania, iniciou sua fala, explicando para os profissionais quais as diretrizes do programa e tirando suas dúvidas de maneira clara e descontraída.

A reflexão acerca das particularidades que envolvem os beneficiários do programa, que tem três frentes de ação – autonomia, oportunidade e cidadania, sensibilizaram os professores para lidar com os alunos e alunas já no primeiro dia de aula. Para Symmy, “a vulnerabilidade das pessoas trans tem como consequência principal a morte precoce dessa população, que tem uma expectativa de vida de aproximadamente 30 anos. O coração desse programa está na escola. Funcionando aqui, o resto funciona”.

Ana Paula Vencato e Adriana Souza, da Coordenadoria de Ações Temáticas da Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres, complementaram a formação tirando dúvidas pontuais dos docentes, Durante os primeiros dias de implantação do Projeto, uma equipe multidisciplinar, com psicólogos e outros profissionais, estarão nas unidades para dar suporte às equipes que receberão os alunos.

Travestis buscam melhorar de vida com programa de formação em SP Featured image 100 pessoas carentes já estão estudando. As alunas estão estudando o ensino médio, curso técnico profissionalizante e vão fazer estágio, saindo das ruas, abandonando a prostituição e sendo introduzidas no mercado de trabalho, desde o mês fevereiro, a rotina das participantes tem sido bastante diferente, assim como todo mundo entre os estudos, trabalho e a fazeres domésticos. A diferença é que, ser travesti e prostituta não a diferencia mesmo tendo que lidar com várias situações complicadas diárias, não deixando desanimar com essa oportunidade de mudar de vida que enxerga no projeto Transcidadania que está executado pela prefeitura de São Paulo para conclusão dos estudos, profissionalização e inclusão das trans no mercado de trabalho.

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Daiane (esq.) ao lado de Symmy Larrat (dir.), coordenadora do projeto

Daiane da Silva, de 23 anos, A estudante se traveste desde a adolescência. Ela nasceu em Fortaleza, no Ceará, onde estudou até a quinta série. Há um ano veio para a capital paulista tentar “melhorar de vida”. Diferente de muitas amigas que moram na rua, ela não é dependente de nenhuma droga e conseguiu alugar um cômodo em uma casa na região do Carandiru. Assim que ficou sabendo do lançamento do Transcidadania, foi ao Centro de Combate à Homofobia (CCH), localizado no Pateo do Colégio, atrás de mais informações e se inscreveu.

 “As pessoas falam que o governo não deveria gastar dinheiro com a gente. Nós somos vistas apenas como sexo ou crime. Ou somos prostitutas ou somos assaltantes. Mas vamos para esses caminhos por que não temos outros. Com essa ajuda, vamos estar no meio da sociedade. E agora que estamos estudando, fazendo tudo certo, eles continuam criticando? Não faz sentido”.

 “Eu procurei emprego várias vezes e fecharam as portas para mim por que tenho a escolaridade baixa. Eu sou esforçada, sei lidar com as pessoas. Mas, quando falo que estudei até a quinta série, falam que não tem como me contratar. Já sou travesti, sem estudo então… impossível”, contou. “Com a escolaridade completa, eles não vão ter como me negar assim de cara. Pelo menos três meses de experiência, em algum lugar, eu vou conseguir”, completou.

Embora procure emprego em praticamente todas as áreas que aparecem de vendas a telemarketing, ela sonha em cursar enfermagem. Quando tem tempo livre, entra na internet, pesquisa detalhes sobre a profissão e fica imaginando se, um dia, conseguirá frequentar hospitais não mais para tratar os ferimentos causados nas agressões que sofre nas ruas, mas para ajudar a cuidar dos outros pacientes.

“As pessoas têm trabalho, têm salário certinho todo mês. Por que eu não posso ter? Ser humano é só homem e mulher hetero? O resto é tudo motivo de piada? A gente sofre muito, é muito desrespeito somos agredidas sempre. Já tentaram me matar na rua, o que mais fazem é tentar matar travesti. Descem do carro e começam a nos espancar à toa. Às vezes conseguimos escapar. Eu sempre consegui”, disse. “O estudo para mim, graças a deus, vai ser muito bem utilizado. Mas entendo que ele não é tudo. Existem pessoas que até se formam e não sabem nada da vida, são mais ignorantes que muito analfabeto”, finalizou.

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Paula Costa, 36 anos, travesti “Quero ser advogada, a lôca!”, diz, sorridente, ela que voltou à escola no equivalente à quinta série no início do ano, quando completar o ensino superior, seu objetivo é defender a causa de sua “classe”, ela explica a origem de sua aspiração profissional. “Os italianos sempre falavam que, de tanto eu interrogar, deveria me tornar advogada.”

Os “italianos” eram os clientes no período em que viveu clandestinamente em Milão, até ser deportada. Hoje, Paula diz viver em um hotel cujo pernoite paga com os programas da véspera. São até três por noite, que rendem de R$ 30 a R$ 50 cada um. Para estudar, sacrifica o sono, o esforço é um investimento no futuro – a clientela está diminuindo, e as beneficiárias temem chegar aos 50 anos “rodando a bolsinha”, como definem a atividade.

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Aline Marques, 36 anos, travesti, uma das 100 beneficiárias do Programa Transcidadania, relata seu primeiro dia de aula, “Passei a semana inteira sem dormir imaginando como seria o primeiro dia de aula depois de tanto tempo. Eu nunca pensei que voltaria para a escola”, nascida no bairro de Vila Formosa, região leste da cidade, sendo a caçula de três irmãos, foi viver nas ruas aos 16 anos, após tragédia familiar, quando ainda não havia terminado o ensino primário. “Por causa da minha sexualidade, fui muito humilhada no ambiente escolar. Eu não sabia se prestava atenção na professora ou nas ameaças que sofria dos outros alunos”.

Foi assim, segundo ela mesma, cheia de vontade e esperança num futuro melhor, que Aline chegou ao Centro Integrado de Educação de Jovens e Adultos (CIEJA) Cambuci para o seu primeiro dia de aula. A unidade foi especialmente preparada para o acolhimento aos alunos, Já na sala de aula, Aline e os companheiros foram recepcionados pela professora Cidinha que, durante a explicação da rotina escolar, afirmou: “Há tempos que a escola deixou de ser depósito de pessoas. Todos estamos aqui para aprendermos, uns com os outros. A escola existe em favor de vocês. Respeitar a diversidade é o que precisamos”, disse a professora.

Questionada sobre a expectativa durante a permanência na escola, Aline foi enfática: “a escola deve acolher todo tipo de pessoa; eu e minhas amigas que estamos integrando o programa Transcidadania, estamos atrás de oportunidades para buscar empregos e provar que nós, travestis e transexuais, podemos sair das esquinas”.

Cyara, 25 anos Travesti, não concluiu o ensino médio porque semnpre era perseguida. Nunca teve um emprego fixo que não fosse a prostituição, não saía durante o dia para “evitar constrangimentos” e, por diversas vezes, teve que escutar que “ser travesti é fácil”, o fato de ter nascido com um sexo e, ao longo de sua vida, ter se identificado com outro a transportou – assim como milhares de outras transexuais e travestis por todo o país – para o limbo da invisibilidade social e retirou o seu direito primordial: o de ser reconhecida como pessoa.

“Esse projeto é um passo inicial para dizermos para a sociedade que, sim, nós existimos. Que nós também temos o direito de estudar, de trabalhar e que temos potencial para conquistar os nossos objetivos e não sermos olhadas apenas como objeto de sexo”.

Novo secretário, Suplicy defende iniciativa “ousada” Eduardo Suplicy novo comandante da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania.

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Eduardo Suplicy sua visita surpresa no CCH

“Acho que é uma iniciativa importante do Haddad e dos demais órgãos da prefeitura. Abriram-se oportunidades a pessoas trans para que elas possam, em vez de estar na rua, realizar cursos e iniciar atividades profissionais. Esse programa se iniciou uma semana antes de eu assumir a secretaria. O Rogério Sottili, secretário anterior, convidado por mim, continua conosco como secretário adjunto. Quero dar continuidade e examinar quais serão resultados da experiência – que, em princípio, me parece muito positiva e ousada”, afirmou.

Se tiver uma dúvida específica sobre o mundo trans, aqui é um bom lugar para buscar informação. Me escreva!

Um beijo,

Lindsay Lohanne

Não sou apenas uma Boneca, sou o diferencial entre as que existem.

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2 comentários sobre “Transcidadania traz de volta a esperança de uma vida melhor para as trans.

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